21.11.02

Não há muito o que dizer. Na última terça-feira eu mandei assassinar friamente o ser mais importante da minha vida: a Frances. Pode soar dramático, pode parecer piada, mas é sério, muito sério. Não vejo muito sentido em continuar achando alguma graça na vida. Fiz uma coisa que não queria, me arrependi apenas alguns minutos depois, mas já não tinha mais volta. E agora terei que conviver com a culpa, com a saudade e com essa dor que parece que nunca vai passar.

Não consigo trabalhar, não consigo conversar, estou com raiva do mundo. Tenho ódio de mim. Tenho ódio dessa vida maldita que conseguiu descobrir meu ponto mais frágil (talvez o único) e me atingiu com um golpe muito, muito baixo. Não há palavra para me consolar. Não há abraço que me conforte. Não há piada que me faça rir. Tudo perdeu o sentido. Eu sei que esse desânimo vai passar e um dia eu voltarei a brincar como antes, a fingir que a vida pode ser boa, a distribuir sorrisos sem sinceridade, tentando enganar minha própria certeza: isso não vale a pena.

Enquanto isso, vou me esconder em uma caverna em companhia da autopiedade e curtir a minha dor, a única coisa que é minha, só minha. Que ninguém vai tirar de mim. Talvez eu volte em dois dias, talvez demore dois anos. Talvez eu não volte nunca. Quem me conhece sabe o quanto isso tudo está conseguindo acabar comigo. Agradeço a todos que passaram por aqui, riram comigo, me fizeram enxergar coisinhas boas no meio de tanta merda, me fizeram acreditar mais em mim.

Abaixo, os últimos minutos de vida da Fran. Para os que não me conheciam, o fantasma por trás dela sou eu.







18.11.02

Eu preciso falar sobre o meu ex-patrão. Preciso. Mais tarde.

Sabem, eu amo meus amigos porque eles fazem exatamente o que eu quero. Quando eu peço um presente, eu ganho. Lembram disso?

"E por falar em bebidas, semana que vem (terça-feira, dia 5) é meu aniversário. Pensei em fazer uma festa, mas desisti da idéia assim que olhei meu saldo, hoje. Mas não vou fazer desfeita: sei que todos vocês já compraram várias garrafas de Johnny Walker para me presentear, então precisamos marcar algum dia para a entrega da mercadoria. Escolham algum boteco pé sujo de São Paulo e me avisem com algumas horas de antecedência, que eu estarei lá. Cada um paga o seu, claro."

Pois é. Vejam o resultado:



Cortesia do Sr. Nishizaki e da Srta. Vanessa. Não, a garrafa de coca cola não veio junto. O presente de aniversário: duas garrafas, uma de Jonival Quer e outra de Jegue Daniel. As bebidas proporcionaram um espetáculo e tanto: o japa italiano dançando músicas do Bonde do Tigrão e a mocinha delicada imitando uma macaca albina são impagáveis. A propósito, como amanheceu o seu fígado no sábado, Nishi?

Roubaram doze horas do meu feriado. E o pior de tudo é que devolveram hoje. Oh céus, oh vida, oh azar.

13.11.02

O pastel
Passei o fim da tarde de hoje dentro de uma delegacia. Não, eu não agredi ninguém. Não, eu não fui presa por atentado ao pudor. Não, eu não participei de nenhum assalto. Foi apenas um roubo de carro e, acreditem, dessa vez a vítima não era eu. Era a sogra.

Depois do telefonema avisando do roubo, peguei o meu carro e fui consolar a pobre senhora. Depois de um passeio turístico por Mauá procurando uma maldita delegacia e correndo sérios riscos, já que eu não usava meu colete à prova de balas, encontramos a distinta senhora desconsolada com a perda do carro. Mais um telefonema e a notícia de que o carro tinha sido encontrado e estava em uma delegacia do ooooutro lado da cidade.

No meio do caminho, o celular toca e a senhora minha mãe avisa: "eu fiz pastel. Cês não vêm jantar aqui?". Ao ser informada do roubo, reagiu com sua delicadeza peculiar: "se vocês não comerem essa merda, eu nunca mais faço nada nessa porra desse cu dessa casa". Tudo isso aos gritos, que era pra sogra ficar logo sabendo com que nível de gente o filhinho dela estava envolvido.

Dez minutos depois, o celular tocou de novo e mais uma vez eu ouvi falar dos tais pastéis. Era ela avisando que os de carne eram os maiores e os de queijo eram os menores. Agradeci e desliguei, amaldiçoando Graham Bell, os japoneses que vendem massa de pastel na feira e até o gato que virou carne moída pra rechear o pastel.

Resolvemos o problema do carro entre recomendações sobre como fritar os pastéis e como armazená-los depois de fritos. Cheguei em casa tarde e fui fritar os tais pastéis. Comi, comi, comi. E foi por isso que precisei das pastilhas Alka Seltzer do post abaixo. Agora eu vou ali preparar um pratinho de pastéis pra sogra e já volto. Se vocês dois (sim, porque um dos leitores desertou) quiserem, eu frito procês. De carne, porque o de queijo acabou.

Não fui eu, mas poderia ter sido. Dia desses vieram me contar de uma crise de riso incontrolável dentro de um motel. O motivo? A figura tinha levado um envelopinho de Alka Seltzer para a noitada, pensando que eram camisinhas. Hoje eu vi um envelope de Alka Seltzer e comprovei: é idêntico. Um bom publicitário faria a festa com um material desses.

12.11.02

Faltam dois dias de trabalho para o feriado. Dois longos dias de velhinhos surdos, madames neuróticas e gerentes estressados que tentam purificar a agência entoando palavras de motivação e acendendo incensos. Eu não sei se sobrevivo.

Tenho o hábito de me imaginar vivendo situações estranhas. E sempre que isso acontece, penso logo em todos os micos que já paguei na vida, para tentar prever o que eu posso fazer de errado. A culpada é minha imaginação fértil, que fazia com que eu imaginasse um frango todo quadriculado quando me falavam em frango xadrez, na infância. Essa maldita também já me fez gritar por quarenta minutos com um cachorro sarnento no meio da rua, tentando "matar cachorro a grito".

Então outro dia desses eu sonhei que estava casando. Comentando com uma das minhas amiguinhas, descrevi a cena do meu casamento: eu, vestida de couve-flor, entrando na igreja. É claro que eu logo me enxerguei pisando na barra do vestido, tropeçando, caindo de cara no buquê e morrendo sufocada em pleno casamento. Isso se não atropelasse uns quatro convidados no caminho...

E hoje minha gerente estava comentando uma reportagem da Veja sobre os lugares ideais para encontrar um marido rico. Dizia a reportagem que os supermercados são boas opções, mas a Bete comentou que achava melhor frequentar a Hípica. Eu logo me imaginei com um chapéu enoooorme, uma echarpe combinando e um nariz empinado, certo? Errado. Eu me imaginei pisando na ponta da echarpe, me enforcando, pisando em um monte de merda de cavalo e despencando de uma arquibancada.

Preciso de tratamento. Ou de um marido pobre que me mantenha amarrada e amordaçada.

Cena 1: eu rodando na porta giratória. Lá pela terceira volta, o guarda resolve falar comigo.

Genivaldo - Juliana, o que está acontecendo?
Eu - Me ajuda, Geninho. Eu não lembro se estava entrando ou saindo do banco.
Genivaldo - Você estava entrando.
Eu - Ah, brigada. E o que eu ia fazer aí dentro? (já na quinta volta)
Genivaldo - ...

--x--
Cena 2: Eu pegando o guarda-chuva da mão de um velhinho e dizendo "deixa que eu passo com seu guarda-chuva". Entrei na porta giratória, pendurei o guarda-chuva na maçaneta (o lugar onde eu penduro o guarda-chuva pro guarda retirar do outro lado), saí da porta e fiquei esperando o velhinho do lado de dentro.

O velhinho - Brigado, moça. Onde está meu guarda-chuva?
Eu - (após alguns momentos de reflexão) Tá ali, ó...

E lá estava o guarda-chuva, do lado de fora do banco. Tinha feito a volta completa com a porta. Eu, o velhinho e o guarda do lado de dentro. Foi nessa hora que chamaram a ambulância do Charcot.

Ontem eu li algo sobre o RG animal, que todos os cães de SP têm que ter e tal. Fiquei pensando... será que a Frances pode tirar RG de portador de deficiência? Será que ela paga menos no pet shop? Pega fila especial para fazer xixi? Ehr... esqueçam.

Cara, eu passei tanto tempo sem postar que esqueci a senha do Blogger. Sorte que tinha anotado em um canto, aqui.

7.11.02

Lembram disso?
"Paz, amor, fé, esperança, luz e união não são apenas palavras. Você tem certeza de que já fez tudo que podia pelo seu semelhante? Pense bem, pois um dia vamos nos encontrar. E eu gostaria muito de poder chamá-lo de meu filho."

Aquele "pois um dia vamos nos encontrar" dito com aquela voz soturna acabou com muitas noites de sono durante a minha infância. Silvio Santos sempre foi sádico. Essa mensagem seguida pela Semana do Presidente era uma tortura. E depois ele ainda lançou o Gugu e o Celso Portiolli. Podia lançar os dois do alto de um edifício...

6.11.02

O cliente - Oi, Juliana. Você está bonita hoje!
Eu - Ehr... obrigada.
Ele - Você fica bem de vermelho.
Eu - Gasp... é... acho que sim.
Ele - Parece um tomate maduro.
Eu - ...

Se eu for de verde e ele me chamar de pé de alface, juro que corto os pulsos.

Eu tenho medo de tubarões
Não, o título não é apenas para causar impacto, ainda que eu não faça idéia de qual impacto pode ter uma declaração banal dessas. Mas o caso é o seguinte: eu me cago de medo de tubarões. Não é um medo normal, como o que todo mundo tem. Não é aquele medo que faz com que qualquer pessoa em plena posse de suas faculdades mentais saiba que sairá correndo (ou nadando, o que é mais provável) caso aviste um ser desses ali em Ubatuba. É um medo absurdo, considerando-se que eu nem moro no litoral.

A coisa começou na infância, lá para mil novecentos e guaraná com rolha, quando me arrastavam para passar as férias em Long Beach. Algum de vocês três já passou as férias em Long Beach? Pois é. Sessão da tarde sempre passa Tubarão. Mais ou menos como o McDonalds: "peça pelo número". Todos os malditos capítulos da saga marítima apavorando as criancinhas. Eu lembro que não entrava no mar enquanto não visse Tubarão, pra saber como o bicho atacava. E depois que via, não entrava no mar com medo de topar com uma criatura daquelas. Resumindo: eu não entrava no mar.

A coisa se agravou com o tempo. Alguns anos depois, eu já cultivava um medinho de piscinas. Não pisava no ralo da piscina nem por decreto, com medo que um tubarão saísse de lá. Relevem o fato de que nem uma sardinha conseguiria passar por um ralo de piscina. E em vez de melhorar, o medo foi piorando. Hoje eu evito piscinas, assim como evito crianças e poodles. E se fosse só isso, estaria tudo bem. O problema é que eu já saio de casa rezando: "tomara que eu não encontre nenhum tubarão pela rua, hoje".

Mas eu descobri que preciso de ajuda, acompanhamento psicológico ou algo assim. Essa noite eu sonhei com tubarões. Montes deles, nadando ao meu redor. E quando eu conseguia sair do mar (sim, eram tubarões de água salgada... eu não estava na piscina dessa vez), eles saíam correndo atrás de mim. Acordei chorando e não tive coragem de levantar, afinal de contas eles poderiam estar embaixo da minha cama. Só me acalmei quando minha mãe assegurou que não existia nenhum ser vivo sob a cama. Mas por via das dúvidas, desci de lá sem bater pernas e braços.

4.11.02

Cara, meu guarda-roupas da Marabraz está se desfazendo. Ele completou um ano na semana passada e agora está em coma. Ele é muito jovem, não merecia passar por isso. Na verdade, ele sofre de lepra há um bom tempo, já. Toda vez que eu abro uma gaveta, arranco uma maçaneta. Tenho que me conformar...

Tudo bem, tudo bem. Já passou a tristeza. Deus sabe o que faz, ao menos assim ele não sofre tanto, né? Quem sofre é quem fica do lado de cá. Eu e minhas roupas, no caso. Agora tenho que ir. Vou providenciar o caixão para enterrar os pedaços do meu guarda-roupas (uma lágrima solitária escorre pela minha bochecha direita). Descanse em paz, meu querido. Logo o meu sofá vai se encontrar com você, lá no céu dos móveis.

E tudo que eu queria era que meu melhor amigo estivesse aqui. Oh céus, acho que estou virando uma velha senhora nostálgica. Alguém me jogue do barranco, por favor. Mas que faça o serviço direito, porque velho com a bacia quebrada é um pé no saco...

É amanhã a merda do aniversário. Mais um dia, menos dinheiro, mais um ano, menos chances de ser alguma coisa que preste (tá, isso nem vale...), menos juízo, mais preguiça, menos coragem de saltar de pára-quedas (tudo junto ou separado?), mais varizes, menos noites em claro, mais fios de cabelos brancos, menos coca-cola, mais suco de laranja, menos vodka, mais vinho.

Hum. Dá pra parar o tempo?

Senhor, dai-me forças para suportar o shopping nosso de cada tarde de sábado, a pizza nossa de cada noite de sábado, o Gugu nosso de cada tarde de domingo (com adereços*) e o cinema nosso de cada noite de domingo. E eu que não lembrava mais por que diabos era tão contrária à idéia de arrumar um namorado.

* Por adereços, entende-se a sogra reclamando da vida, a mãe da sogra dizendo "hein?" a cada frase sua, a irmã do namorado com ar de quem comeu e não gostou e a filha da irmã do namorado vomitando leite azedo na sua roupa limpa.