27.1.03

Tempos modernos
Na minha adolescência, os pais que queriam o sucesso de seus filhos deveriam ensiná-los a construir rimas pobres, balançar um pandeiro ou jogar futebol. O auge do sucesso ficava garantido assim que a pobre criança aprendia a dar uma cuspida de lado ao mesmo tempo em que falava de si na terceira pessoa sem que os perdigotos respingassem nas câmeras de TV.

Hoje em dia, um bom investimento no futuro dos pimpolhos é matriculá-los em aulas de tupi-guarani e dança da chuva. Assim que eles estiverem diplomados nessas duas coisas, basta mandar uma fita pro SBT e aguardar o chamado para entrar no tal de Rouge.

No caso de crianças sem muita coordenação motora para fazer os passinhos complicados daquela dança, pode-se também ensinar veterinária e garantir os direitos autorais sobre músicas que falem de cachorrinhos e egüinhas Pocotó.

Pessoalmente, acho que prefiro as rimas capengas e as canelas escangalhadas. E só para lembrar disso, aqui vai um versinho de uma música linda do meu tempo:

"Hoje resolvi mudar, vou deixar de lhe amar.
Hoje resolvi mudar, vou cantar, vou cantar.
Juro não ser mais um bobão.
Hoje resolvi mudar, vou cantar, vou cantar..."
Sampa Crew

13.1.03

Cuidado. A história abaixo contém trechos muito, muito nojentos. Pessoas com sensibilidade exagerada devem clicar no X ali no canto superior direito.

Essa é a história (verídica) de um caixa de banco com problemas auditivos. Depois de semanas sofrendo com dores terríveis em seu ouvido direito, o moço em questão pediu à namorada que cuidasse do caso. Afinal de contas, passar o problema adiante é uma habilidade cuidadosamente desenvolvida por bancários em geral.

- Morzinho, vire a cabeça para lá. - disse a garota.
- Ei, o que é isso que você pingou no meu ouvido? - perguntou o rapaz.
- O remédio de ouvido dos meus cachorros. Eles vivem com dor de ouvido. - respondeu ela.


E o namorado melhorou milagrosamente da tal dor. Uns dias depois, o ouvido do rapaz começou a coçar, coçar, coçar. Aquela agonia o dia todo: um dedo no teclado e outro no ouvido. Desenvolveu uma técnica imbatível para cutucar o ouvido em movimentos circulares com a mão direita, enquanto a outra mão passava contas da Eletropaulo pelo leitor de código de barras. Só se embananava na hora de grampear os comprovantes: duas ou três vezes grampeou a própria orelha.

O destino, porém, conspirava contra ele. Na fila do caixa, a cliente mais importante do banco aguardava o atendimento. Assim que pegou as contas da moça para pagar, sentiu aquela velha coceira. Sem pensar duas vezes, meteu o indicador direito no ouvido e começou o processo de limpeza: girando, girando, girando. Três voltas para a frente, quatro para trás, enfia até o fundo, puxa um pouquinho. Era praticamente a abertura de um cofre. Ao tirar o dedo, uma surpresa: um bloco de cera do tamanho de um toco de lápis adornava seu indicador.

Olhou para aquele corpo estranho, olhou para a cliente. Olhou de novo para a cera, mais uma olhadela para a cliente. Limpou de qualquer jeito a cera na sua calça pensando "minha mãe vai me matar" e continou a pagar as contas. Ao entregar os comprovantes para a cliente, notou manchas com aquela cor... aquela. Olhou para o teclado e não encontrou a tecla A. Olhou para sua calça e chorou. Até hoje o rapaz não conseguiu explicar ao seu gerente que tipo de prática sexual foi realizada naquele caixa no dia em questão. Mas a cliente nunca mais apareceu por lá.

Comentário do Claudio ao ver o guarda que trabalha com ele rindo e batendo palmas sem motivo aparente:

"Céus! Eu trabalho com uma foca. Devo jogar uma bola colorida?"

Minha sugestão seria jogar uma sardinha. Mas às seis da tarde, em um cubículo com o ar condicionado estourado, creio que não seria uma boa idéia.

12.1.03

E por falar em clientes e outros seres estranhos, teve aquele dia em que eu resolvi ser simpática e perguntei a um dos clientes se estava tudo bem. O problema é que ele respondeu.

- Ah, Juliana, cê não sabe... minha pressão foi lá pro alto essa semana e eu ando com umas dores de cabeça estranhas, ninguém sabe explicar e...

E nesse momento um corno entalou na porta giratória. *Piiiiiiiiiiii*. E o guarda gritava "objetos de metal, senhor" e o corno ameaçava arrancar a roupa. E o velhote continuava me contando suas mazelas.

- Porque eu sou hipertenso, você sabe. E quando eu passo nervoso, já viu. Aí ataca tudo. Pra piorar, eu peguei essa gripe no Natal e...

O corno conseguiu, enfim, passar pela porta giratória e estava lá dentro batendo boca com o guarda. Eu sabia que ia sobrar pra mim, mas foda-se, o velho não parava mais de falar.

- E, sabe, eu torci o pé outro dia ali na rampa do shopping. Saqualé? Então. Aí a minha filha veio e...

Nessa hora uma outra cliente resolveu me chamar pra ajudar nas máquinas. Maldito pagamento de IPVA. Que todos os responsáveis pelo sistema do banco apodreçam no inferno. Bom, mas eu estava falando da tal cliente que começou a cutucar minhas costas pedindo ajuda. E eu pulava com os cutucões da senhora, já meio agressiva. E eu me contorcia de cócegas quando ela começou a cutucar a minha cintura. E o velhote lá ainda.

- Sabe, Juliana, a vida não presta. A gente chega a essa altura da vida sem um tostão no bolso, sem dignidade nenhuma e sem saúde. Bons tempos aqueles da ditadura.

Enquanto eu tentava descobrir o que diabos tinha a ditadura a ver com a hipertensão do velho, chegou o carteiro. "Mocinha, assina aqui". Aos pulinhos por causa dos cutucões, dizendo "é mesmo? Jura?" em resposta aos devaneios do velhote, assinei e recebi as cartas. Um ótimo pretexto para largar aqueles dois - o velhote e a mulher dos cutucões - lá embaixo e desaparecer.

- "Seu" José, eu vou ali levar esse negócio e já volto. Senhora, aguarde só um instantinho.

E sumi. Dizem os vigilantes que o velhote continuou contando sua história para a mulher dos cutucões e saíram os dois de braços dados pela rua. Ele, satisfeito por encontrar uma ouvinte. Ela, satisfeita porque o velho pagou as contas dela sem perceber, enquanto se lamentava. Talvez isso tenha acabado em casamento e o velho pare de choramingar.

Ossos do ofício
Sabem, eu tenho uma sorte impressionante com patrões, gerentes e afins. Todos têm hábitos estranhos ou personalidades confusas. Dois dos meus ex-patrões adoravam arrotar na minha cara. Um outro gostava de assistir vídeos pornôs em horário de serviço e, claro, me chamava lá a cada exibição para buscar algum documento ou anotar alguma coisa.

Meu atual gerente é uma criatura estranha. Passa a primeira meia hora do expediente com incensos na mão, defumando a agência. Na hora de abrir o banco, ele atravessa a porta giratória rodando como um peru e diz para os clientes: "Bom dia!!! Meu nome é Zé* e eu sou o gerente da agência Sucupira. Sejam todos bem vindos ao nosso banco. Aqui pode entrar prostituta, traficante, qualquer um, desde que não tenha objetos de metal".

Uma colega do banco conta que certa vez o chefinho pediu que ela abrisse a agência para ele:

Ele - Camila, abra a agência e convide quem estiver lá fora a entrar no banco.
Ela - Convidar? Porra, se a gente não sair da frente, os clientes nos atropelam. Eles não precisam de convite, não.

É assim a rotina de um banco onde o gerente ainda não decidiu se quer ser o Silvio Santos ou a Vera Verão (homenagem póstuma).

* Os nomes dos funcionários e da agência foram trocados para preservar nossa já avariada reputação.

5.1.03

Sabe aqueles dias em que você acorda, olha no espelho e toma um susto? Pois é. Ontem foi assim. Não é que minhas olheiras tenham amanhecido maiores. Elas sempre foram assim. Não é que meu nariz tenha crescido durante a noite. Ele sempre esteve lá, aquele troço meio torto e deslocado. Não é que os peitos tenham caído de um dia para o outro. Eles nunca foram lá essas coisas, mesmo. É só que tudo isso pareceu saltar diante do espelho e eu comecei a pensar em todas aquelas teorias sobre beleza e inteligência.

Quando eu era pequena, me diziam que quando as crianças nascem feias, elas se tornam bonitas na maturidade. Nasci feia. "Simpática, coitada", como definiu meu avô. "Vai ter que ser inteligente", como concluiu minha mãe. Mas sempre restou uma esperança de que eu melhorasse com o tempo. Não aconteceu. Nasci, cresci e permaneci meio estranha.

Se eu tivesse escolha, trocaria uns 10% da dita inteligência por peitos empinados. Trocaria mais 5% por um cabelo que não se transformasse em um bonsai. Uns 15% por uma barriga lisinha e mais uns 10% por um sorriso colgate. Eu teria 60% da minha inteligência e seria bonitinha. Ou eu poderia ser mais inteligente. Inteligente o bastante para ganhar muito dinheiro e resolver todos esses problemas com uma boa plástica.